Confiança docente: como se manter inteiro em meio ao caos

Confiança Docente

Há algum tempo a escola parece pequena demais para o tamanho do mundo que entra por ela. Os conflitos chegam antes do conteúdo. As dores chegam antes da aprendizagem. E, no meio disso, o professor tenta se sustentar, entre o que precisa ensinar e tudo aquilo que não estava no plano de aula.

Foi e está sendo uma mudança silenciosa, pois bem recente começamos a perceber que a sala de aula deixou de ser apenas um espaço de ensino e passou a ser também um território atravessado por questões sociais, emocionais e familiares cada vez mais complexas. E o professor, muitas vezes, se vê diante de situações para as quais não foi preparado.

Que a formação dos professores está precária nós sabemos, mas há algo mais profundo que precisa ser elucidado e que nos faz refletir que muitas vezes a questão não é falta de formação, mas sim, excesso de demandas.

O professor não foi formado para ser terapeuta, mediador de conflitos familiares, suporte emocional constante e, ainda assim, garantir aprendizagem em níveis cada vez mais exigentes. Mas, na prática, é isso que tem acontecido. E quando não consegue dar conta de tudo, nasce uma sensação difícil de nomear: a de não ser suficiente.

Mas talvez seja aqui que uma virada precise acontecer...

O professor não precisa dar conta de tudo. Ele precisa, antes de tudo, saber qual é, de fato, o seu lugar.

Recuperar a confiança no fazer docente não passa por tentar abraçar todas as urgências que chegam à escola, mas por reconhecer aquilo que é essencial: o professor é mediador do conhecimento, construtor de sentido, presença que organiza o ambiente para que a aprendizagem aconteça. E é nisto que ele precisa ser competente. 

Quando esse lugar se perde, o caos ganha espaço e até o que era seguro se torna confuso perde o sentido. Por outro lado, quando esse lugar se fortalece, o caos não desaparece, mas deixa de conduzir.

A confiança docente não nasce do domínio absoluto de todas as situações. Ela nasce de três movimentos simples, mas profundos.

O primeiro é a clareza de papel. Entender o que é responsabilidade do professor e o que precisa ser encaminhado, compartilhado, dividido com a rede de apoio. Nem tudo precisa, e nem deve, ser resolvido sozinho. 

O segundo é o repertório de ação. Não é sobre saber tudo, mas sobre ter algumas respostas possíveis diante do inesperado. Saber acolher sem absorver, escutar sem se perder, intervir com firmeza sem romper vínculos. Pequenas atitudes constroem uma presença forte.

O terceiro é a postura interna. O aluno percebe quando o professor está inseguro. E também percebe quando ele está presente, inteiro, sustentando o espaço da aprendizagem. Firmeza não é rigidez. É coerência. É saber permanecer, mesmo quando o entorno oscila.

A escola nunca será imune ao mundo. E talvez nem deva ser. Mas o professor não pode desaparecer dentro desse mundo que invade a sala de aula todos os dias. Ensinar, hoje, é também um ato de sustentação.

E a confiança não nasce quando tudo está sob controle. Ela nasce quando, mesmo no meio do caos, o professor ainda reconhece o seu lugar  e, permanece nele.

Você já se perguntou por que ainda se levanta todos os dias para ir a uma escola cheia de conflitos? Se, em algum momento, a resposta deixou de ser o desejo de organizar e mediar aprendizagens, talvez seja hora de se escutar com mais atenção. Não como cobrança. Mas como reconexão.

Pense nisso.

 

Dica de leituras:

- Educação Emocional Para Professores Conhecendo as Informações Para Ensinar e Aprender Melhor

- Cuidar de quem educa: Como manter o bem-estar e o equilíbrio emocional para vencer os desafios da educação

 - Por uma educação sensível 

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