Letramento matemático: ensinar contas ou formar pensamento?

Você já percebeu que há crianças que leem palavras com fluidez, mas se perdem diante de um problema simples. Isso não é falta de esforço, mas talvez um sinal de que, muitas vezes, estamos alfabetizando na língua… Mas não estamos alfabetizando na matemática.

E aqui nasce uma pergunta necessária: o que significa, de fato, letrar matematicamente uma criança?

Letramento matemático: ensinar contas ou formar pensamento?

Letramento matemático: muito além das contas

A BNCC é clara ao apontar que a matemática na escola deve desenvolver: 

1 -  resolução de problemas
2 - raciocínio lógico
3 - argumentação
4 - compreensão de conceitos

Sendo assim, não se trata de fazer contas, mas sim de usar a matemática para compreender e atuar no mundo. Letramento matemático é isso: quando a criança lê, interpreta, pensa e produz sentido com números. 
 

O caminho invisível: como a criança aprende matemática

 
É importante pensar que a criança não aprende matemática de uma vez. Ela vai trilhando caminhos que precisam ser conhecidos pelo professor. E estes caminhos perpassam por dois tipos de pensamentos. Veja:
 
Pensamento aritmético
- compreender quantidades
- operar com números
- perceber transformações
 
Pensamento algébrico 
- identificar padrões
- perceber relações
- generalizar ideias

Embora tenham seus desdobramentos estes dois pensamentos não são separados. Eles são construídos juntos. Faz-se necessário, no entanto,destacar um ponto essencial: o pensamento aritmético sustenta o desenvolvimento do pensamento algébrico.

E aqui há algo muito importante para se destacar 
que muitas vezes não é percebido por alguns professores:
 
Sem compreender número… não há como compreender relações.
 

A escada do pensamento matemático

Para que esse desenvolvimento aconteça, a criança precisa subir alguns degraus e eles estão organizados da seguinte maneira: 

1. Sentido de número:
Compreender que o número representa uma quantidade real.

2. Composição e decomposição:
Entender que um número pode ser formado e transformado em outras partes.

3. Relações numéricas:
Perceber como os números se comparam, se transformam e se conectam.

4. Estratégias de cálculo:
Escolher formas de pensar para resolver uma situação, e não apenas aplicar regras.

5. Resolução de problemas:
Esses degraus são progressivos -

Perceba que a cada degrau que a criança vai subindo uma nova habilidade ela adquiri e se uma falha, o próximo enfraquece, pois cada degrau tem uma função no processo de construção da aprendizagem.  
 

 Onde erramos e o que precisamos ajustar?

Hoje em dia, ainda é comum vermos práticas como: treino repetitivo de contas, atividades prontas sem contexto, foco no resultado, não no processo. E isso acaba fazendo com que as crianças acertam, mas não expliquem, resolvam, mas não compreendam e façam a matemática… sem pensar matematicamente. 
 
Letramento matemático: ensinar contas ou formar pensamento?
 

Como tornar o letramento matemático possível na prática?

1. Comece pelo concreto
Antes do símbolo, a criança precisa viver a situação. Neste momento a caixa da matemática fará toda a diferença na sala de aula. 

Exemplo:
Entregar 5 objetos e pedir que tire 2.
 
2. Permita representar 
Neste momento de construção é importante que a criança experimente. Para isto, ela pode desenhar, riscar e organizar...
 
Exemplo:
Desenhar os objetos e riscar quais foram retirados.
 
3. Só depois, simbolize 
Após realizar as experimentações chega a hora do significado. É por isto que se diz que o número precisa nascer do significado.
 
Exemplo:
5 – 2 = 3 
Quando tem o significado construído a criança faz esta operação com compreensão do que cada número representa.
 
4. Valorize as estratégias
Aqui está o ponto-chave do processo. Cada criança pensa de um jeito e, se antes de deixarmos que elas criem estratégias oferecemos um modelo pronto para chegar ao resultado acabamos por limitar seu processo e, por vezes, retardar sua compreensão das relações numéricas. Assim, antes de resolver problemas, as crianças precisam saber que existem várias formas de se chegar a um mesmo resultado. 

Neste momento a pergunta que deve nortear o trabalho é:  “Como você pensou?”
 
5. Trabalhe com problemas reais
A matemática precisa fazer sentido, por isso quando for propor resoluções de problemas para as crianças use situais reais, para que ela consiga se aproxima do sentido. 
 
Exemplo:
“Você tinha 5 balas e deu 2. Quantas sobraram?”

Pensamento Algébrico na alfabetização

E o pensamento algébrico, onde entra?

Você sabia que mesmo sem usar letras, este pensamento já pode (e deve) ser desenvolvido. Vale a pena criar situações onde as crianças precisam: 

- explorar padrões (2, 4, 6…)
- comparar quantidades
- trabalhar equivalências (3+2 = 4+1)
- pensar em “quanto falta”
 
Cuidadosamente vamos ampliando os conceitos e a criança começa a perceber que a matemática tem regularidade e lógica.
 
E a BNCC?
Quando você organiza sua aula nesse percurso, ou seja, considerando que a criança constrói o conceito de número e que para isto ela precisa passar por etapas. Você:
 
- Desenvolve as habilidades presentes na BNCC:
 
📝Utilizar números naturais como indicador de quantidade ou de ordem em diferentes situações cotidianas e reconhecer situações em que os números não indicam contagem nem ordem, mas sim código de identificação. (EF01MA)
 
📝Fazer estimativas por meio de estratégias diversas a respeito da quantidade de objetos de coleções e registrar o resultado da contagem desses objetos (até 1000 unidades (EF02MA)
 
- Trabalha resolução de problemas
 
- Promove raciocínio e argumentação
 

Para guardar e praticar

A criança não aprende matemática quando copia. Ela aprende quando compreende. 
E compreender exige: tempo, mediação, sequência, intencionalidade.

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